Congresso One Health arranca com apelo à cooperação e alerta climático na saúde

Congresso internacional sobre One Health, coorganizado pela Ordem dos Farmacêuticos, arrancou com forte apelo à cooperação entre profissões e alerta para o impacto das alterações climáticas na saúde

Teve hoje início o V 1H-TOXRUN & Portuguese Pharmaceutical Society – International Joint Meeting on ONE HEALTH, encontro científico internacional que reúne especialistas nacionais e estrangeiros em torno de um dos temas mais estratégicos da atualidade: a interligação entre saúde humana, saúde animal e saúde ambiental.

A sessão de abertura contou com a participação do Professor Félix Carvalho, em representação da Ordem dos Farmacêuticos, que sublinhou a importância crescente do conceito One Health num mundo marcado por riscos globais complexos e interdependentes.

Na sua intervenção, destacou que desafios como as alterações climáticas, a poluição, a resistência antimicrobiana, a insegurança alimentar, a escassez de água e a desinformação científica exigem respostas articuladas entre diferentes áreas do conhecimento e profissões da saúde. Referiu ainda que “não existe saúde humana sustentável num planeta degradado”, defendendo uma nova cultura de cooperação institucional, baseada na evidência científica e orientada para a prevenção.

O Professor Félix Carvalho salientou também o papel dos farmacêuticos neste novo paradigma, nomeadamente na promoção do uso responsável do medicamento, na proteção da saúde pública, na sustentabilidade ambiental e no reforço da literacia em saúde.

Lição plenária sobre alterações climáticas e vulnerabilidade partilhada

Após a sessão inaugural, o Professor Félix Carvalho proferiu a Opening Lecture do congresso, intitulada “A Warming Planet, A Shared Vulnerability: Climate Change Through the One Health Lens”, na qual apresentou uma análise abrangente dos impactos do aquecimento global sobre a saúde pública e os sistemas sanitários.

Na conferência, evidenciou dados recentes que demonstram a aceleração das alterações climáticas, incluindo o facto de 2024 ter sido o ano mais quente desde o início dos registos instrumentais e de as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono terem atingido níveis sem precedentes ao longo de cerca de dois milhões de anos.

Entre os principais riscos abordados destacaram-se:

  • aumento da frequência, intensidade e duração das ondas de calor;
  • mortalidade associada ao calor extremo, especialmente em pessoas com doenças cardiovasculares e respiratórias;
  • escassez hídrica e insegurança alimentar, com potenciação da toxicidade de medicamentos e outros xenobióticos;
  • expansão geográfica de doenças transmitidas por vetores;
  • incêndios florestais e contaminação ambiental;
  • perturbações no acesso ao medicamento causadas por eventos climáticos extremos.

O orador destacou ainda que as alterações climáticas devem ser encaradas como um multiplicador de risco toxicológico, interferindo na exposição humana a contaminantes ambientais e na resposta do organismo a substâncias químicas.

Ciência, prevenção e visão estratégica

A terminar, Félix Carvalho defendeu a necessidade de políticas públicas mais integradas, sistemas de saúde resilientes e cadeias de abastecimento do medicamento preparadas para eventos extremos, reforçando que o futuro da saúde dependerá da capacidade coletiva de antecipar riscos e agir preventivamente.

O primeiro dia do congresso prosseguiu com várias sessões científicas dedicadas a temas como microplásticos, lítio ambiental, educação para a sustentabilidade e impacto ambiental dos medicamentos, confirmando a relevância crescente da agenda One Health. Merece particular destaque a participação de dois farmacêuticos que integram o Grupo de Trabalho “Medicamento e Ambiente” da Ordem dos Farmacêuticos, estrutura vocacionada para liderar a gestão ambiental e promover boas práticas sustentáveis no setor farmacêutico, que apresentaram duas comunicações de elevado interesse e forte impacto para a atividade profissional farmacêutica: Cristina Almeida (Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa), com a conferência “Education for Sustainability: Integrating Green Toxicology and Environmental Stewardship into Pharmaceutical Training”, centrada na integração da sustentabilidade e da toxicologia verde na formação farmacêutica; e Bruno Nunes (University of Aveiro / CESAM), com a apresentação “Environmental Risk Assessment of Medicinal Products: Beyond the Guidelines”, dedicada aos desafios emergentes da avaliação do risco ambiental dos medicamentos para além dos referenciais regulamentares tradicionais.

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