Nota de pesar pelo falecimento do Professor Doutor Francisco Carvalho Guerra

A Direção Regional do Norte da Ordem dos Farmacêuticos manifesta o seu mais profundo pesar pelo falecimento do Professor Doutor Francisco José Amorim de Carvalho Guerra, uma das personalidades mais relevantes da Farmácia, da Universidade e da ciência portuguesas das últimas décadas.

Farmacêutico, professor universitário, investigador, dirigente académico e associativo, o Professor Carvalho Guerra construiu um percurso verdadeiramente excecional, marcado por uma dedicação permanente ao conhecimento, à formação das novas gerações, à valorização da profissão farmacêutica e ao serviço das instituições e da sociedade portuguesa.

Nascido em 1932, em Oliveira de São Pedro, Braga, iniciou a sua formação superior com o Bacharelato em Farmácia, concluído em 1954 na Universidade de Lisboa, seguindo-se a Licenciatura em Química Farmacêutica, obtida em 1956 na Universidade do Porto. Doutorou-se em Bioquímica, em 1964, na Universidade do Porto, alcançando a agregação em 1970 e a cátedra de Bioquímica em 1971. Este percurso académico evidencia, desde logo, a sólida articulação que sempre estabeleceu entre a sua identidade farmacêutica, a investigação científica e o ensino universitário.

A sua formação e atividade científica adquiriram precocemente uma dimensão internacional. Entre 1958 e 1960, foi investigador em Farmacologia na Washington University School of Medicine, em St. Louis, nos Estados Unidos da América. Mais tarde, entre 1964 e 1965, realizou uma formação pós-graduada no Steroid Training Program da Worcester Foundation for Experimental Biology, também nos Estados Unidos. Estas experiências contribuíram para consolidar uma carreira científica de referência na área da Bioquímica, desenvolvida numa época em que a internacionalização da ciência portuguesa era ainda limitada e particularmente exigente.

Na Universidade do Porto, e muito especialmente na Faculdade de Farmácia, o Professor Carvalho Guerra deixou uma marca profunda e duradoura. Foi Diretor do Centro de Estudos de Bioquímica do Instituto de Alta Cultura, entre 1965 e 1975, e Secretário-Geral do Centro de Citologia Experimental da Universidade do Porto, entre 1975 e 1995. Exerceu ainda as funções de Vice-Reitor da Universidade do Porto, entre 1985 e 1991, integrou o Senado da Universidade e presidiu, entre 1994 e 2001, ao Conselho Científico da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto.
Enquanto docente da Faculdade de Farmácia, participou na formação de sucessivas gerações de farmacêuticos, bioquímicos, investigadores e professores. A sua influência ultrapassou largamente as disciplinas que lecionou ou os órgãos académicos que dirigiu. Através do rigor científico, da exigência intelectual e da capacidade de criar instituições e aproximar pessoas, contribuiu decisivamente para a afirmação da Bioquímica e das Ciências Farmacêuticas na Universidade do Porto e em Portugal.

A profissão farmacêutica sempre ocupou um lugar central no seu percurso. Em 1973, foi eleito Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, assumindo a liderança da profissão num período particularmente marcante da história portuguesa. Mais tarde, em 1989, foi eleito Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Direção Nacional da Ordem dos Farmacêuticos. A sua ligação à Farmácia científica prolongou-se igualmente através da Sociedade de Ciências Farmacêuticas, à qual presidiu a partir de 1999.
O seu exercício de funções na Ordem dos Farmacêuticos deve ser recordado não apenas pelo elevado cargo que desempenhou, mas, sobretudo, pela visão ampla que possuía da profissão. Para o Professor Carvalho Guerra, a Farmácia era uma profissão científica, humanista e socialmente responsável, indissociável da Universidade, da investigação, da saúde pública e do desenvolvimento do país. O seu percurso constitui, por isso, uma referência para todos os farmacêuticos, em especial para aqueles que reconhecem no conhecimento, na ética e no serviço à comunidade os fundamentos essenciais da profissão.

A sua intervenção científica e institucional estendeu-se muito para além da Faculdade de Farmácia e da Ordem dos Farmacêuticos. Presidiu, em diferentes mandatos, à Sociedade Portuguesa de Bioquímica, integrou a Academia das Ciências de Lisboa e participou em numerosos organismos nacionais e internacionais ligados à investigação, à ciência, à tecnologia, à biotecnologia e ao ensino superior. Representou Portugal em estruturas da NATO, da UNESCO, da Comunidade Económica Europeia e da OCDE, assumindo responsabilidades de grande relevância na definição e no acompanhamento de políticas científicas e tecnológicas.
Foi igualmente uma figura determinante no desenvolvimento do ensino superior no Norte do país. Desempenhou funções de grande responsabilidade na Universidade Católica Portuguesa, primeiro como delegado do Reitor e, posteriormente, como Presidente do Centro Regional do Porto. Presidiu também à Associação das Universidades da Região Norte e participou em múltiplas estruturas de articulação entre o ensino superior, a investigação, as empresas e a sociedade.

A sua vasta produção científica incluiu mais de 80 artigos em revistas nacionais e internacionais na área da Bioquímica, mais de 70 comunicações em conferências e numerosos seminários apresentados em universidades estrangeiras. Organizou congressos nacionais e internacionais de Bioquímica e cursos avançados apoiados pela NATO, contribuindo ativamente para a projeção internacional da ciência portuguesa.

A relevância do seu contributo foi reconhecida por meio de algumas das mais elevadas distinções nacionais e internacionais. Foi agraciado como Grande-Oficial da Ordem da Instrução Pública, recebeu a Ordem das Palmas Académicas do Governo francês e foi distinguido com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo. Recebeu ainda o grau de Doutor Honoris Causa em Ciências da Saúde pela Universidade do Minho e foi condecorado pelo Papa João Paulo II com a Comenda de São Gregório Magno.
Perante um percurso tão vasto, seria difícil enumerar todas as funções que desempenhou, as instituições que ajudou a construir, os projetos que impulsionou e as pessoas que influenciou. Mais importante do que a extensão do seu currículo é o sentido de serviço que o atravessa: serviço à Farmácia, à Universidade, à ciência, ao desenvolvimento regional e nacional e à formação das novas gerações.

O Professor Carvalho Guerra pertenceu a uma geração de académicos que não se limitou a ocupar cargos ou a dirigir instituições: ajudou a criá-las, a modernizá-las e a conferir-lhes ambição. Soube conjugar a identidade de farmacêutico com a de cientista, professor e servidor do bem comum. Deixa, por isso, um legado que continuará presente na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, na Ordem dos Farmacêuticos, nas instituições científicas que serviu e em todos aqueles que com ele aprenderam e trabalharam.

A Direção Regional do Norte da Ordem dos Farmacêuticos apresenta à sua família, aos seus amigos, aos seus antigos alunos e colegas e a toda a comunidade académica e farmacêutica as mais sentidas condolências.

A profissão farmacêutica portuguesa perdeu uma das suas figuras maiores. Permanecem, contudo, o exemplo, a obra e a memória de um homem que dedicou a vida ao conhecimento, à Universidade, à Farmácia e ao serviço de Portugal.

Professor Doutor Francisco Carvalho Guerra: a Farmácia portuguesa e a Universidade não esquecerão o seu legado.

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